Embora o mercado financeiro sempre tenha sido considerado um ambiente com forte presença masculina, a participação feminina tem crescido de forma significativa nos últimos anos. As mulheres estão cada vez mais presentes em todos os segmentos, inclusive na área de criptomoedas.

A tendência, inclusive, é confirmada por pesquisas. Em 2020, um relatório divulgado pelo CoinMarketCap mostrou que, apenas nos primeiros quatro meses do ano, o número de mulheres no mercado aumentou 43%. Além disso, em dezembro, um levantamento da Grayscale apontou que elas representam 43% dos investidores interessados em bitcoin.

Características como maior flexibilidade, facilidade de comunicação e habilidades para formar comunidades estão entre as competências que, de certa forma, explicam o aumento da presença feminina no setor. Mas, claro que não é somente isso! “Nunca me disseram que eu não podia”, diz Helena Margarido, especialista em criptomoedas e tecnologia. Conheça a história dela e de outras mulheres que ocupam posições de destaque no mercado!

Tecnologia não tem gênero

Advogada, com mestrado em direito, Helena Margarido é especialista em criptomoedas na Inversa Publicações. Suas palestras já a levaram a eventos sobre o tema no Congresso Nacional, na China e até na Organização das Nações Unidas (ONU).

Helena Margarido

“Comecei a me interessar por esse mercado entre 2011 e 2012, ao atender, em meu escritório de advocacia, uma startup que já mexia com isso. Um cliente perguntou se eu conhecia bitcoin e isso despertou minha curiosidade. Fui ler sobre o tema e me apaixonei”, conta. “No começo, olhei para as criptomoedas pelo viés da tecnologia, depois que entendi melhor. Em 2012 me tornei uma entusiasta”, diz ela.

Segundo Helena, na época o mercado ainda estava engatinhando. No entanto, ela enxergou o seu potencial. “Isso tem um impacto social, pois torna as coisas mais baratas, ao eliminar os intermediários”, explica. A motivação por entender melhor o segmento, além de seus próprios investimentos, a levaram a deixar a área de direito e se dedicar ao setor.

“Sempre acreditei que homens e mulheres são iguais, a tecnologia não tem gênero – embora de fato nas profissões ligadas à exatas exista a predominância masculina”, afirma. Para ela, o aumento da participação feminina no setor é algo natural, pois as mulheres são melhores do que os homens ao lidar com multitarefas. “Além disso, mulheres tendem a estudar mais e ter maior paciência ao lidar com adversidades”, destaca, frisando que 1% do seu desempenho foi sorte, mas 99% foram fruto de muito estudo.

Sem medo da exposição

Solange Gueiros, especialista em Blockchain (arquitetura e desenvolvimento), com foco em Bitcoin, Ethereum, Smart Contracts e Hyperledger, afirma que começou a ficar conhecida ao fazer um workshop na arena de Blockchain da Campus Party. “Um palestrante no último dia não pôde comparecer e eu pedi para fazer uma apresentação. Não tinha nada preparado, mas fui para o palco com meu material e ensinei a criar uma criptomoeda. Os outros participantes disseram que foi a melhor palestra”, conta.

Formada em ciência da computação e pedagogia, além de ter especialização em coaching, com foco em coaching financeiro, empresarial e de carreira, Solange confirma que o ambiente de negócios é, de fato, masculino. “Se eu paro para olhar à minha volta, realmente vejo que só tem homem. Mas nunca prestei atenção a isso. Sempre fui atrás dos meus objetivos sem dar atenção para esta diferença. Eu não vejo homens e mulheres, eu vejo cérebros e pessoas inteligentes”, ressalta.

Solange Gueiros

Mas a especialista destaca um momento “feminino” no Blockchain: “pelo que a comunidade diz, eu fui a primeira mulher a publicar um smart contract na Mainnet do Ethereum a partir do Brasil, em 2018”.

Solange conta que a partir de 2018, começou a ministrar workshops por todo o Brasil. “Tudo o que ganhei naquele ano, investi em viagens internacionais para as grandes conferências e hackathons no mundo, para trazer mais conhecimento para o país. No final de 2018, eu já era palestrante também em conferências internacionais”.

Eu fui a primeira mulher a publicar um smart contract na Mainnet do Ethereum a partir do Brasil, em 2018.

Questionada sobre as razões do reconhecimento do mercado, Solange diz que um dos motivos é não ter medo de se expor. “É a mesma coisa em relação a trades. Eu já perdi no passado e ganhei de novo, não tenho medo, sempre me recupero. Se aparecer qualquer insegurança, sempre lembro da frase o não você já tem, faça algo para conseguir o sim”, diz.

Solange diz ter consciência de que todas as empresas pelas quais passou contribuíram para sua trajetória, além das comunidades (como Blockchain Devs, Bitcoin São Paulo, Women In Blockchain e a Blockchain Academy) e organizadores de eventos. “Nesse caminho, aprendi que, quanto mais eu compartilho meu conhecimento, mais eu aprendo e cresço fazendo as pessoas e projetos evoluírem. Eu acredito em um mundo melhor com Blockchain”, frisa.

mulheres cryptoAs mulheres sempre precisam provar um pouco mais

No mercado de trabalho, as mulheres sempre precisam provar que sabem o que estão fazendo, que os seus projetos são bem executados e válidos. A visão é de

Charys Oliveira, que foi diretora operacional na Stratum coinBR, onde coordenou a operação de compra e venda de criptomoedas. “Sempre precisamos entregar algo mais, mesmo tendo capacidades semelhantes ou até melhor preparo do que os homens”, diz.

Charys sempre trabalhou em ambientes masculinos, embora sua formação seja em gestão da informação e gestão estratégica de marketing. Passou por empresas importantes, como a Petrobras, sempre atuando na área de telecomunicações, mas começou a se encantar pelo universo das criptomoedas em 2014.

Charys Oliveira

“Eu entrei para atuar na área de marketing, mas depois comecei a gerenciar carteiras, compra e venda de ativos. Consegui formar uma equipe que era quase toda composta por mulheres. E encontrei excelentes profissionais, tinha um time de mulheres fantásticas, comprometidas comigo e com a empresa. Tivemos excelentes resultados, fizemos eventos de altíssima qualidade, como o Bitcoin Summit, cuja última edição foi em abril de 2019”, contou.

Hoje, a especialista trabalha para uma fintech em Florianópolis, que faz a gestão integrada de pessoas. Além disso, desenvolveu o projeto Compra na Volta, com o propósito de falar de afinidade feminina com finanças e de criptomoedas para mulheres.

O nosso maior desafio, além de entrar em áreas mais técnicas – porque as mulheres tendem a ficar principalmente na comunicação e no direito -, é sermos mais arrojadas. As mulheres precisam ter confiança e conquistar seu espaço no mercado, finaliza.

Mais oportunidades que desafios

“Acredito que muitos setores tradicionais ainda têm uma segregação forte à presença feminina, principalmente os de tecnologia e o mercado financeiro. Ativos digitais e blockchain permeiam exatamente esses dois mundos. Assim, a cultura das empresas pode ter influência do modelo antigo”, diz Juliana Walenkamp, responsável pelo Business development da Ripple na América Latina. “Mas, minha vivência nesse nicho me mostrou mais oportunidades do que desafios”, ressalta.

Formada em relações institucionais e com experiências diversas no mercado, Juliana afirma que sempre foi apaixonada pela globalização e suas possibilidades. “Nos últimos dez anos, atuei em posições comerciais ou de business development, em áreas como International Trading, Shipping, E-Commerce, Consultoria, Petróleo e Gás e FX”, conta.

Juliana Walenkamp

A profissional avalia que cada experiência contribuiu para a sua formação e para que chegasse à função que desempenha atualmente. “Remessas internacionais eficientes eram pontos sensíveis nos diversos mercados em que atuei. Agora, estou do outro lado da mesa, tentando sanar a dor que muitas empresas ainda enfrentam”, explica. Segundo ela, o trabalho com propósito sempre foi um de seus principais objetivos e, para tanto, a busca por informações e conhecimento é sua principal aliada. 

Juliana conta que trabalha com ativos digitais há quatro anos e já teve diversas vivências diferentes no mesmo segmento. “Como se trata de um mercado relativamente novo, com cerca de 13 anos apenas, posso dizer que tenho uma experiência interessante”, destaca.

A primeira interação de Juliana com o tema aconteceu devido a demanda de um cliente, que necessitava de uma solução para acessar bitcoins no mercado offshore. Para ajudá-lo, ela resolveu estudar o mercado de bitcoin e blockchain e passou a entender o quanto os ativos digitais são disruptivos. “Foi um caminho sem volta”, afirma.

Para Juliana, o setor é vivo e dinâmico; assim como a própria tecnologia, ele se reinventa o tempo todo, seja nos modelos de negócios, regulamentação ou na própria cultura das empresas. “E muitas delas que nascem com esse DNA cripto já trazem o debate e colocam em prática a diversidade e inclusão de gênero”. 

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