O sistema financeiro no Brasil tem várias vulnerabilidades, muitas das quais decorrentes de questões políticas. Questões como lavagem de dinheiro, elisão fiscal e outras irregularidades precisam ser solucionadas antes da digitalização, na visão do ex-diretor do Banco Central, Gustavo Franco. 

O economista, que foi o idealizador do Plano Real e fundador da gestora Rio Bravo Investimentos, acredita que as inovações podem trazer várias soluções importantes para o sistema monetário e para a arquitetura do dinheiro, embora tenha algumas ressalvas. Em sua avaliação, as criptomoedas precisam se ajustar às regulamentações e governança para serem adotadas em maior escala. 

Ele não é contrário às novas tecnologias, mas considera que, sem regras adequadas, as soluções não têm sustentação. “Não podemos imaginar um sistema anônimo, que permita brechas para irregularidades. Claro que quanto mais privacidade, melhor”, acredita Franco. “Mas é ingenuidade acreditar que ninguém enxergará as transações. Precisamos trabalhar na governança do sistema”, disse o economista no evento Future of Money, promovido pela revista Exame. 

gustavo franco

Para Gustavo Franco, regulamentação e transparência são essenciais

Na opinião do especialista, o sistema financeiro está em um momento de transição, com a chegada de inovações como o PIX, as CBDCs (moedas digitais emitidas por bancos centrais) e as criptomoedas. Para ele, o bitcoin e demais criptoativos não são moedas, mas, sim, commodities eletrônicas. “Não devemos perder nosso tempo com isso”, afirma.

A transição para uma economia fiscal e financeiramente responsável é uma questão atual, segundo ele. O uso e reconhecimento de moedas eletrônicas teve um ponto de destaque, quando o Facebook propôs o projeto Libra, mas em sua avaliação  isso “não deu certo”, pois enfrentou resistências e naufragou no congresso norte-americano, apesar de ter surpreendido os reguladores.

“Talvez o Facebook não tenha sido o melhor mensageiro, mas deixou, nos bancos centrais, uma percepção duradoura, que motivou a pesquisa da próxima inovação importante, que cresce em toda parte, que são as CBDCs”, afirmou. Porém, em sua avaliação, qualquer criptomoeda, seja o bitcoin, seja uma CBDC, precisa de transparência. 

pix
Digitalização removeu barreiras de entrada ao sistema monetário

No Brasil, segundo Franco, essa linha de pensamento levou inicialmente ao PIX, que é um arranjo semelhante a uma grande bandeira de cartões, ou meio de pagamento, no qual o Banco Central é o único que comunica todas as contas a um único sistema de pagamentos instantâneos. 

“O PIX funciona como um cartão de débito para as contas de depósito à vista, o que torna os pagamentos indistinguíveis de transferências de titularidade de fundos com lastro no BCB o mesmo valendo para as contas de pagamento. É como se tivéssemos uma CBDC de estilo inglês”, destaca.

Para o economista, a digitalização e unificação de contas de pagamentos e contas de depósito convencionais foi o primeiro passo para remover a barreira de entrada tanto para novos agentes, quanto para novos clientes. Em sua avaliação, as inovações são interessantes, mas não podem se desenvolver sem regulamentação sólida. 

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