Estamos prestes a completar um ano da eclosão da pandemia provocada pelo Covid-19 e somos todos testemunhas das profundas transformações decorrentes da crise sanitária, especialmente no campo econômico.

A economia global já dava sinais de esgotamento do ciclo de crescimento iniciado pós-crise financeira de 2008, caracterizado pela mudança do eixo de crescimento rumo ao oriente, pelas sucessivas injeções de liquidez e redução das taxas de juros, ao ponto de termos atualmente as principais economias do globo imersas em montanhas de endividamento e títulos públicos negociados com taxas de juros reais negativas.

A excepcionalidade da pandemia levou as principais autoridades monetárias a aumentar a aposta, expandindo substancialmente a emissão de moeda e a criação de programas de estímulos na tentativa de evitar o colapso das economias obrigadas a entrar em lockdown, o que restringiu a produção e consumo de bens e serviços.

Passado o choque inicial, o mercado financeiro reagiu eufórico aos estímulos, colocando os principais ativos financeiros em patamares recorde de preço, em dissonância com as condições reais da atividade econômica. 

As últimas notícias vindas dos EUA confirmam esse cenário. S&P 500 e Nasdaq, principais índices de ações daquele país, renovaram seus recordes históricos há poucas semanas, na expectativa do novo pacote de estímulo de US $1,9 trilhão proposto pelo presidente Joe Biden. 

A escalada inflacionária e a curva de juros norte-americana

Com o mundo de ponta cabeça, um inimigo antigo voltou a sentar na mesa: o risco de uma escalada inflacionária global, puxada especialmente pela alta do preço das commodities com a retomada gradual das atividades. Como resposta a isso, a curva de juros futuros americano deu um salto, acendendo o alerta no mercado financeiro.

Em meio a essa conjuntura, o bitcoin tem ganhado cada vez mais destaque como alternativa de diversificação e gerenciamento de risco, tendo alcançado a marca importante de US$ 1 trilhão em capitalização de mercado, com as cotações acima de US$ 50 mil nesta semana.

As moedas digitais antes restritas a pequenos nichos de mercado, passaram a ser seriamente debatidas não só por traders e entusiastas, para atingirem o status de instrumento de proteção para empresas preocupadas com o declínio gradativo das moedas fiduciárias.

microstrategy

Microstrategy como precursora de um grande movimento

Essa mudança drástica de abordagem tem como principal defensor Michael Saylor, fundador da Microstrategy, empresa de consultoria listada nos EUA, que desde o ano passado passou a alocar parte significativa do caixa da companhia para comprar bitcoin. Nos últimos meses, a Microstrategy dobrou a aposta e passou a emitir títulos de dívida com objetivo de reforçar suas compras de bitcoin, algo até então impensável.

A tese da Microstrategy se mostrou consistente a ponto de conquistar Elon Musk e convencê-lo a manter em torno de 8% do caixa da Tesla em bitcoin, iniciando as compras em janeiro. Passadas poucas semanas, com a valorização recente, pode-se dizer que a Tesla teve mais retorno financeiro comprando bitcoin do que vendendo seus cultuados carros elétricos. 

O famoso gestor Ray Dalio cunhou a expressão “cash is trash”, ao analisar o risco em manter liquidez empossada em meio a farra do crédito com juros baixos e incerteza quanto ao famigerado “novo normal”. Com crédito abundante, preservar caixa se tornou ainda mais fundamental. 

Cada vez se torna mais provável que os exemplos da Microstrategy e da Tesla gerem um efeito em cadeia entre as corporações. Ainda é cedo para prever a extensão desse movimento, mas o fato é que isso já está em curso. 

Escassez digital programada no centro da valorização do bitcoin

A tese fundamental de investimento em bitcoin é baseada no conceito de escassez digital programada e no sistema monetário descentralizado da rede. A cada hora, o bitcoin se torna ainda mais escasso, tendo atualmente uma oferta marginal diária de aproximadamente 900 novas moedas, quantidade muito inferior à demanda crescente por bitcoin. Soma-se a isso a inclinação natural pela acumulação dos detentores de bitcoin e temos os ingredientes perfeitos para a continuidade da trajetória de valorização.

Muito provavelmente você se deparará com análises complexas sobre o que está acontecendo para que o bitcoin tenha se valorizado tanto. Sem tirar os méritos desses esforços análiticos, na minha humilde avaliação estamos diante um processo que basta entender de forma clara os mecanismos de oferta e demanda para enxergar o quão assimétrico tende a ser o investimento em bitcoin.

De agora em diante, passamos a fase dos early adopters e a criação de Satoshi Nakamoto mostrará todo seu valor para aqueles que tiverem a humildade intelectual para se aprofundar nos estudos e a coragem para se posicionarem antes da cada vez mais provável hipervalorização do bitcoin. 

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