Não há dono de exchange que não conheça o Banco Plural. A instituição se firmou como o maior parceiro de empresas na área de criptomoedas, principalmente exchanges, e segue se expandindo nesse mercado. Uma das novidades é a atuação na assessoria de um cliente da área de mineração e prestação de serviços similares no mercado de OTC. Em entrevista ao PanoramaCrypto, o sócio do banco Willian Yoshihiro, conta como foi a aproximação do grupo financeiro com o mercado crypto e analisa o cenário atual das criptomoedas no Brasil em relação à regulamentação. Veja a seguir a entrevista na íntegra:

O Banco Plural é um banco bem mais ligado ao mercado de criptomoedas do que bancos tradicionais, tendo desenvolvido diversas soluções específicas para esse setor. Como foi o movimento que levou o Plural ao cenário atual?

O grupo financeiro foi criado em 2009 pelos ex-sócios do Pactual. O grupo iniciou como uma asset e depois, em 2011, compramos a corretora de varejo Geração Futuro. Em 2012, compramos o Banco Múltiplo. Em 2013 começamos a operar como banco comercial e de lá para cá fomos adquirindo outras empresas. Vimos oportunidade de avançar também em plataforma de investimentos e então decidimos agrupar tudo embaixo da Genial Investimentos.

Em 2017, vendo o crescimento da área de criptomoedas, passamos a atuar em duas frentes: uma de assessoria a ICOs e compramos uma participação minoritária numa exchange chamada Flow meramente para ter um pé dentro desse setor. Nesse ínterim, vimos o começo do movimento de bancos comerciais fechando contas de exchanges. E aí vimos uma oportunidade de entender e atender esses clientes, fornecendo soluções bancárias para eles.

E que tipo de atendimento vocês faziam aos clientes de crypto nessa época, diante de um mercado ainda um pouco incipiente e desconhecido?

Existia uma grande deficiência no mercado nessa época. Demorava duas semanas para identificar o depósito do cliente, ou seja, o cliente tinha que esperar duas semanas para poder comprar as criptomoedas, num mercado essencialmente de alta, na época. Vendo essa falha, desenvolvemos um sistema de identificação imediata de depósitos e implantamos primeiro no Mercado Bitcoin. E automaticamente isso serviu como um conceito de segurança e compliance, semelhante a corretoras tradicionais. Com isso, evitou-se créditos de terceiros na conta e depósito em boleto, para evitar fraude ou lavagem de dinheiro.


Implementação de processos junto aos clientes

Nessa área de criptomoedas, é preciso ter um cuidado muito grande com os clientes que se admite no banco, como é que o Plural faz essa filtragem para impedir clientes potencialmente problemáticos?

Em 2018, havia um crescente movimento de arbitragem e as pessoas começaram a nos procurar para fazer a arbitragem. Quase 100% dos arbitradores estavam aqui. Naturalmente, começamos a filtrar mais e exigir mais documentos e, naturalmente, selecionamos os melhores clientes. Alguns que se adequaram, voltaram, outros não. Ficamos sempre com os melhores. Nesse ano também foram criadas muitas exchanges. Ainda em 2018, estendemos nossa atuação, antes restrita ao Mercado Bitcoin, passando a ampliar nossa participação de mercado ao fornecer o sistema de identificação de depósitos e de pagamentos instantâneos a outros players.

Ou seja, você assumiram um papel de identificar falhas no mercado de criptomoedas e corrigir essas falhas para o desenvolvimento do mercado…

Nosso papel aqui é justamente encontrar falhas e tentar solucionar. Assumimos o papel de auxiliar um setor ainda não regulado a prestar todos os serviços financeiros, tornando o setor o mais próximo possível do mundo regulado. Com isso, as novas exchanges que foram criadas em 2019 já nasceram sem os problemas antigos do setor. Hoje são poucas as exchanges que não utilizam nosso sistema. Isso acaba nos tornando o liquidante do setor. Então qualquer cliente de qualquer exchange que tenha que mandar recursos, acaba mandando para o Plural. O pessoal gosta de comparar a gente com a B3 aqui no Brasil, guardadas as devidas proporções.

Estamos com um papel aqui de auxiliar um setor ainda não regulado em prestar todos os serviços financeiros para esse setor tornando ele o quão mais próximo do mundo regulado possível.

E aí vocês conseguem identificar problemas que ocorrem nas exchanges…

Sim. Mantemos padrões elevados de controle. Quando notamos informações suspeitas ou algum desenquadramento, chamamos para conversar, tiramos todas as dúvidas, ajudamos o parceiro, mas se não houver ajuste e o desenquadramento persistir podemos inclusive encerrar a conta.

Como são os processos de segurança do banco para evitar fraudes e dinheiro sujo circulando?

Fraudes são um risco iminente em todo setor financeiro, e com o segmento de cripto não seria diferente. Criamos um processo de verificação de segurança e comunicação entre os bancos via exchanges. Hoje quando identificamos um caso de fraude, criamos um sistema de travamento de recursos no bitcoin. Dessa forma conseguimos recuperar o que foi hackeado. Um cliente novo numa exchange, por exemplo, teoricamente não conseguiria comprar grande quantidade de crypto. Se isso acontecer, pedimos para segurar e liberar em tranches o resgate de aquisição de crypto, para dar tempo de algum rastreio de fraude.


Ampliação de negócios para mineração e OTC

E esse processo segue em evolução?

Todos nossos clientes ficam muito próximos de mim e do banco Plural. Sempre estamos um passo à frente, criando mecanismos e as pessoas adotam. Por exemplo, contratamos quatro escritórios de advocacia, revimos todos os nossos processos e pedimos para que os nossos clientes adotassem alguns desses processos. Isso faz com que eles nos olhem de forma muito positiva. E mesmo quando deixam de ser nossos clientes, continuam próximos, aderem a nossas melhores práticas e voltam.

O que o mercado pode esperar do Plural para os próximos anos no mercado de criptomoedas?

Começamos a olhar recentemente o mundo de mineração para ajudar um cliente. Procuramos entender bem o mercado para dar uma assessoria completa para o cliente que tem um projeto interessante. Ajudamos recentemente o Mercado Bitcoin em um projeto de OTC e vamos continuar ajudando nossos clientes a adotar os melhores processos.

E ainda existem falhas no mercado a serem corrigidas?

Há ainda um grande desafio na verificação de capacidade financeira dos clientes. Hoje muitas as pessoas operam com recursos superiores à sua própria capacidade, principalmente no mundo de OTC. Por ser um mercado não regulado, isso é um risco porque está passível da entrada de recursos ilícitos. Esse não é um problema tão fácil de resolver e depende do esforço das contrapartes em verificar isso. Contribuímos via Mercado Bitcoin com a criação de processos, por exemplo. Outro segmento que não me dá conforto é o de quem opera peer-to-peer, é um mundo muito arriscado.

Quando o negócio é não regulado, você deveria ser o mais conservador possível.

Stablecoins devem ser usadas para comércio exterior

Como você vê o surgimento das stablecoins nesse processo de amadurecimento do mercado de criptomoedas brasileiro como um todo?

Estamos olhando esse mercado de stablecoins para uso de remessas ao exterior, feitas por pessoas físicas. Remessas de baixo valor. O Brasil tem um banco central bastante rigoroso no que se refere à conversão de moedas, o que torna remessas ao exterior caras. Acredito que haverá uma flexibilização do BC e consequentemente pode abrir uma possibilidade para o mundo de criptomoedas. O banco está com uma cabeça mais moderna e deve buscar formas de implementar algo nessa direção. Por exemplo, tem alguns movimentos de flexibilização em curso como a possibilidade de criação de contas em dólar. Estamos olhando isso com alguns players para ver como fazer essas remessas ao exterior de forma correta. Um exemplo são as empresas estrangeiras que nos procuram para viabilizar isso. Por outro lado, sou contra a utilização de stablecoins para comércio exterior.

Por que aí o cliente está fechando uma operação de câmbio, certo?

Nesse caso seria evasão de divisas e sonegação fiscal. Isso é ilegal. Tem gente que usa a regra com mais ousadia, mas não é o nosso caso. Quando o negócio é não regulado, devemos ser o mais conservador possível.

Você acha que vem alguma regulamentação nessa direção?

Não sabemos, mas o grande desafio é como fazer esse enquadramento de criptomoedas no mercado cambial brasileiro. A frase que resume o setor cambial é que a única moeda que se utiliza é o real e qualquer outra moeda precisa ser convertida para real e obrigatoriamente precisa ser feita por uma instituição financeira. Aí fica a discussão se crypto é ativo mobiliário ou se é moeda. Por isso a dificuldade de se regular isso.

O que o Banco Central está fazendo em relação ao mundo de criptomoedas e qual será o impacto em sua regulação?

O BC está atualizado sobre o mercado de criptomoedas e segue se aproximando dos principais players. A futura regulação irá trazer padronização no processo e ajudará as empresas e pessoas físicas sérias que buscam realizar as operações de forma correta.

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